Quantos ultrassons você realmente precisa fazer na gestação
Duas recomendações diferentes convivem no Brasil, e as duas estão certas dentro da própria lógica. Entenda o que cada uma diz e por que seu obstetra pode pedir mais exames.
Poucas dúvidas aparecem tanto na sala de exame quanto esta. Uma amiga fez seis ultrassons, outra fez dois, e o posto de saúde disse que um era suficiente. Nenhuma delas recebeu informação errada — elas encontraram réguas diferentes, e ninguém explicou que existe mais de uma.
As duas recomendações que convivem no Brasil
A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, a FEBRASGO, recomenda dois ultrassons de rotina para uma gestação de risco habitual: um no primeiro trimestre e o morfológico do segundo trimestre.
O Ministério da Saúde é mais econômico. O Guia do Pré-natal na Atenção Primária de 2024 orienta ao menos uma ultrassonografia, preferencialmente no primeiro trimestre, e reconhece com todas as letras que não há evidência de benefício da ultrassonografia de rotina em gestantes de risco habitual.
O calendário da FEBRASGO
- Primeiro trimestre, entre 11 semanas e 13 semanas e 6 dias. Confirma a idade gestacional, verifica se há mais de um bebê e avalia marcadores como a translucência nucal, o osso nasal e o ducto venoso.
- Morfológico do segundo trimestre, entre 20 e 24 semanas. Avalia a anatomia do bebê estrutura por estrutura, com a medida do colo do útero e a avaliação da placenta e do líquido.
Há ainda uma referência internacional muito usada, a da ISUOG, que trabalha com o morfológico entre 18 e 22 semanas. Não é contradição: são entidades diferentes, com réguas próprias. No Brasil, a referência é a da FEBRASGO.
Por que o seu obstetra pode pedir mais
O número de dois é o piso para uma gestação que corre sem intercorrências. Ele cresce quando existe uma razão clínica: pressão alta, diabetes, gestação de gêmeos, um achado que precisa ser reavaliado, um crescimento que merece acompanhamento mais próximo.
Nesses casos os exames deixam de ser rotina e passam a ser acompanhamento. É por isso que a comparação entre gestações raramente ajuda: cada pré-natal responde a uma história.
Fiz mais ultrassons do que a recomendação. Fiz exames demais?
Não necessariamente. A recomendação de dois vale para o rastreamento de rotina. Se o seu obstetra pediu outros, ele tinha uma pergunta clínica para responder — e é com ele que vale conferir qual era.
E se eu só conseguir fazer um?
Se for um só, o mais valioso é o do primeiro trimestre, porque é ele que estabelece a idade gestacional com maior precisão. Essa data acompanha todo o restante da gestação.
O que o ultrassom não faz
Nenhum exame de imagem identifica tudo. O próprio protocolo da FEBRASGO orienta que se explique à paciente que o morfológico é um exame de rastreamento, e que nem todas as alterações serão identificadas ou são passíveis de identificação naquele momento.
Isso não diminui o exame. Só coloca no lugar certo o que ele oferece: informação valiosa sobre um momento específico, não uma garantia sobre o futuro.
Revisão técnica
Dra. Cinthia Manzano Menegatti · Ginecologia e Obstetrícia
CRM/SC 16686 · RQE 16792
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